O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta sexta- feira (9). A intervenção de emergência nos preços dos combustíveis a poucas semanas do segundo turno expõe a mais clássica e reincidente engrenagem da política brasileira: quando a corrida eleitoral se estreita, o rigor orçamentário invariavelmente capitula diante do instinto de sobrevivência nas urnas. O anúncio do governo federal de zerar tributos sobre a gasolina e injetar subsídios para o diesel importado e o etanol, com validade cirúrgica de 30 dias, repete à risca um roteiro que o próprio campo governista costumava classificar como puro estelionato eleitoral quando executado por adversários.
A justificativa oficial, ancorada na necessidade de conter a volatilidade internacional provocada por conflitos externos e blindar a renda das famílias, tem apelo imediato junto ao eleitorado. Nenhuma variável macroeconômica contamina a percepção popular de bem-estar com a velocidade e a capilaridade do preço cobrado na bomba. Contudo, a fatura de R$ 5,2 bilhões mobilizados para um fôlego de apenas um mês somando a renúncia de arrecadação e as subvenções diretas evidencia o tamanho da urgência política em estancar qualquer sangria inflacionária antes do desfecho eleitoral.
O paradoxo econômico da medida é evidente. Em um cenário no qual a inflação pressiona o teto da meta e restringe o espaço para cortes na taxa básica de juros, recorrer a um alívio fiscal artificialmente represado desorganiza as expectativas de médio e longo prazo. Ao subsidiar o consumo de combustíveis fósseis no apagar das luzes da campanha, o Executivo não apenas contradiz bandeiras históricas de transição energética e disciplina das contas públicas, mas também transfere para o início do próximo mandato uma pressão represada de preços que cedo ou tarde cobrará seu preço.
No xadrez do poder, a gasolina sempre funcionou como o verdadeiro termômetro da estabilidade de um governo. Ao lançar mão de um pacote bilionário de curtíssima duração para segurar o humor do consumidor até o fechamento das seções eleitorais, o Planalto demonstra que, no pragmatismo da disputa final, as convicções fiscais tornam-se temporárias e o futuro orçamentário do país fica secundarizado até que a última urna seja apurada.