O Ministério da Saúde deu início a um projeto – piloto inédito para a oferta de semaglutida princípio ativo utilizado em medicamentos contra a obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS). O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante uma cerimônia que marcou o início dos testes e a aplicação da primeira dose em um paciente da rede pública.
A iniciativa será coordenada pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), localizado em Porto Alegre (RS). O objetivo principal do projeto é avaliar a viabilidade técnica, o impacto clínico nos pacientes e a relação de custo-benefício da medicação, servindo de base para uma eventual incorporação definitiva do tratamento no catálogo nacional do SUS.
O Estudo “Real-Bari”
Batizado de Real-Bari, o estudo clínico terá duração de dois anos e acompanhará de perto um grupo selecionado de 250 pacientes com obesidade grave (graus II e III) ou mórbida. Todos os participantes selecionados possuem comorbidades associadas como doenças cardiovasculares, diabetes ou depressão e aguardam na fila para a realização de cirurgia bariátrica.
De acordo com dados do GHC, a situação epidemiológica do hospital justifica o foco desse grupo: cerca de 91% dos pacientes que tratam obesidade na instituição sofrem da forma mórbida da doença, e menos da metade (47%) apresenta condições clínicas seguras para serem submetidos a uma cirurgia imediata.
Os pacientes do programa receberão doses semanais de até 2,4 mg de semaglutida, acompanhados por uma equipe médica multidisciplinar. A meta é reduzir o peso corporal e mitigar os riscos de saúde antes do procedimento cirúrgico.
“O Brasil está sendo pioneiro na utilização desse medicamento no sistema público de saúde. Estamos estimulando estudos nessa tecnologia para que o país se aprimore, cada vez mais, da sua produção e oferta de forma segura”, afirmou o ministro Alexandre Padilha.
Contexto financeiro e quebra de patentes
A incorporação de medicamentos baseados em hormônios análogos do GLP-1 vinha sendo rejeitada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em anos anteriores, sob a justificativa de que o alto custo das “canetas emagrecedoras” inviabilizaria o orçamento público.
No entanto, o cenário mudou recentemente por dois fatores principais:
- Redução de preços: A fabricante Novo Nordisk apresentou uma nova proposta comercial à Conitec, oferecendo um desconto substancial (cerca de 59%) em relação aos valores praticados anteriormente.
- Abertura de mercado: A expiração das patentes da semaglutida abriu caminho para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovasse as primeiras versões genéricas nacionais (como a desenvolvida pela farmacêutica EMS), o que projeta uma queda acentuada nos custos de aquisição pelo Estado.
Os resultados obtidos pelo projeto-piloto no Rio Grande do Sul fornecerão os dados técnicos necessários para que a Conitec decida, em definitivo, se o medicamento será distribuído gratuitamente em escala nacional para perfis específicos de pacientes.