Uma megaoperação da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, deflagrada nesta terça-feira (02/06), colocou sob holofotes um dos esquemas mais sofisticados de engenharia financeira do Comando Vermelho. Batizada de Operação Riqueza Sombria, a ação mira uma rede de lavagem de dinheiro que movimentou impressionantes R$ 116 milhões.
Até o momento, a ofensiva resultou em duas prisões preventivas, além da apreensão de uma arma de fogo, celulares e farto material eletrônico que devem robustecer as próximas fases do inquérito.
O Raio-X da Operação
Coordenada pela 96ª DP (Miguel Pereira), a ação descentralizada cruzou fronteiras estaduais para sufocar o braço financeiro do tráfico. Agentes cumprem mandados de busca e apreensão em quatro estados da federação:
- Rio de Janeiro: Foco em Cabo Frio (Região Lagos) e no bairro do Jacaré (Zona Norte da capital).
- Mato Grosso do Sul: Alvos na região de fronteira.
- São Paulo e Minas Gerais: Endereços ligados a empresas de fachada e “laranjas”.
A força-tarefa conta com o suporte de elite da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), além do Ministério Público, por meio dos Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Rio de Janeiro e de Mato Grosso do Sul.

A Estratégia do “Formigueiro”: Como o Dinheiro Sumia
O coração do esquema baseava-se em uma tática conhecida no jargão policial como smurfing (ou pulverização). Para não acender os alertas de órgãos de controle como o Coaf, o volume bruto de capital oriundo do tráfico de drogas era fatiado.
Mecanismo de Camuflagem:
- O dinheiro vivo das bocas de fumo era levado a agências bancárias próximas a redutos da facção (com ênfase no Complexo do Chapadão).
- Valores eram fracionados em depósitos pequenos, de baixa quantia, injetados diretamente em contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas (“laranjas”).
- Uma vez no sistema, o dinheiro circulava por empresas de fachada até retornar “limpo” para a cúpula da organização criminosa.
A Conexão Sete Quedas: A Rota Caipira e Internacional
As investigações apontaram que uma parte crucial do grupo operava em Sete Quedas (MS), município fronteiriço considerado estratégico para a entrada de armas e drogas no Brasil.
O que chamou a atenção dos inspetores foi o padrão de vida incompatível dos investigados da região. Indivíduos que declaravam baixa renda ou eram formalmente desempregados movimentavam cifras astronômicas. Em um dos casos mais emblemáticos, um único suspeito recebeu 54 depósitos em espécie ao longo de quatro anos, totalizando quase R$ 68 mil, sem comprovação de qualquer atividade laboral lícita.
O Fio da Meada: Uma Gaveta de 2020
Toda a arquitetura da Operação Riqueza Sombria começou a desmoronar há seis anos. Em 2020, durante uma incursão rotineira na comunidade do Tatão, em Anchieta (Zona Norte do Rio), policiais apreenderam uma série de comprovantes de depósitos bancários em um esconderijo do tráfico.
Em vez de tratar os papéis como lixo cartorário, o setor de inteligência mapeou os CNPJs e CPFs impressos nos canhotos. O cruzamento de dados revelou que o varejo da droga no Tatão alimentava uma engrenagem interestadual muito maior.
O foco da Polícia Civil agora entra em uma fase de asfixia patrimonial: rastrear imóveis, contas blindadas e ativos de luxo para garantir que o dinheiro do crime não volte a financiar o arsenal da facção.

