Thiago Rangel cede cargos na Educação para líder do tráfico

O escândalo envolvendo desvios de verbas na educação pública do Rio de Janeiro ganhou novos e graves contornos nesta semana. A Polícia Federal (PF) obteve acesso a áudios e trocas de mensagens que revelam a atuação direta do deputado estadual Thiago Rangel (Avante) dando ordens no âmbito da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) e negociando cargos públicos com membros do crime organizado.

O parlamentar, que já havia sido preso preventivamente no dia 5 de maio de 2026 durante a 4ª fase da Operação Unha e Carne, utilizava sua influência política não apenas para direcionar licitações, mas também para usar os postos de trabalho de escolas estaduais como moeda de troca.

A negociação com “Júnior do Beco”

De acordo com o inquérito conduzido pela PF e validado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), Rangel trocou mensagens detalhadas com seu suposto braço direito, Fábio Pourbaix de Azevedo, orientando-o a contratar pessoas indicadas por Arídio Machado da Silva Júnior, conhecido no mundo do crime como “Júnior do Beco”.

Júnior do Beco é classificado pelas autoridades como um criminoso de alta periculosidade, possuindo condenações por homicídios simples e qualificados, além de tráfico de drogas e associação para o tráfico, com fortes ligações com o Comando Vermelho no Norte e Noroeste Fluminense.

Em um dos diálogos, datado de junho de 2021, o esquema funcionou da seguinte maneira:

  • Ofertando as vagas: Thiago Rangel encaminha o contato de Júnior do Beco para Fábio e avisa que o traficante havia solicitado duas vagas de emprego.
  • Acomodação: O deputado informa que tinha em mãos oito vagas disponíveis para “auxiliar de serviços gerais” dentro das escolas estaduais e ordena que Fábio separe duas delas para atender ao pedido do criminoso.
  • As escolhidas: No mesmo dia, o traficante enviou os nomes de duas mulheres para preencherem os cargos: a sua própria irmã, Ildilene Rangel, e uma segunda mulher, Phâmela, que já havia sido alvo de uma operação da PF (Operação Roncador) contra o tráfico em Campos dos Goytacazes.

Ordens na Educação e Lavagem de Dinheiro

O material apreendido pela Polícia Federal (que conta com mais de 80 páginas de relatórios) deixa evidente que o deputado operava como uma espécie de “gestor paralelo” dentro da Seeduc. Rangel dava ordens diretas sobre quais empresas deveriam vencer licitações para reformas de colégios estaduais, forçando o direcionamento dos contratos para firmas pertencentes ao seu próprio grupo.

Para despistar as autoridades, as investigações apontam que o dinheiro público desviado das escolas era depositado em contas bancárias ligadas a uma rede de postos de gasolina administrada pelo próprio deputado, onde a verba ilícita se misturava ao faturamento legal, configurando crime de lavagem de dinheiro. Outro dado que chamou a atenção da Justiça foi a evolução patrimonial de Thiago Rangel: seus bens declarados aumentaram mais de 700% em um intervalo de apenas dois anos.

O que diz a defesa

Em nota oficial, a defesa do deputado Thiago Rangel afirmou ter recebido as acusações com surpresa e declarou que está analisando o conteúdo integral das investigações. Os advogados reiteram que o parlamentar nega qualquer prática ilícita, confia nas instituições de Justiça e irá prestar todos os esclarecimentos no decorrer do processo. A defesa pontuou, ainda, que “conclusões antecipadas são indevidas” antes que haja pleno acesso aos elementos do inquérito. A Secretaria Estadual de Educação (Seeduc) ainda não se pronunciou detalhadamente sobre o caso.