A Polícia Federal deflagrou a 8ª fase da Operação Unha e Carne, que resultou na prisão preventiva do deputado estadual eleito Márcio Correia de Oliveira (o Márcio Canella), do ex-secretário estadual de Polícia Civil Marcus Vinicius Amim Fernandes e de outros quatro policiais civis. Nesta quinta-feira (15). A ação investiga uma organização criminosa armada estruturada em torno de uma vasta rede de postos de combustíveis na Baixada Fluminense e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, suspeita de lavar mais de R$ 7,6 bilhões ao longo dos últimos seis anos.
As medidas restritivas e cautelares foram expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito dos procedimentos derivados da ADPF 635 (conhecida como ADPF das Favelas / Missão Redentor II).Além das seis prisões preventivas, foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão em sete municípios (Rio de Janeiro, Niterói, Nova Iguaçu, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios), além do bloqueio de ativos financeiros e da suspensão das atividades econômicas de 112 pessoas jurídicas.
Os Principais Alvos e as Linhas de Acusação
A operação atingiu figuras centrais da política fluminense e da cúpula da segurança pública estadual:
- Márcio Canella (União Brasil):Presidente estadual da sigla e ex-prefeito e liderança de Belford Roxo, Canella foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro no último pleito (197.178 votos). O político já havia sido detido em julho de 2026, na 6ª fase da mesma operação, em flagrante porte de arma de fogo de calibre restrito (fuzil), o que o levou a abrir mão de uma candidatura ao Senado para disputar a Alerj. Segundo a PF, Canella teria recebido cerca de R$ 1,4 milhão sem origem declarada comprovada de núcleos vinculados ao esquema de combustíveis.
- Marcus Vinicius Amim Fernandes:Delegado e ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Amim é o quinto chefe da corporação a ser preso por investigações criminais na história do estado.Os relatórios de inteligência da PF indicam que sua empresa, a Mamim Consultoria Ltda, recebeu R$ 1,82 milhão da distribuidora e prestadora de serviços ADM Oil em repasses mensais de R$ 70 mil entre abril de 2024 e maio de 2026. Para a PF e a Procuradoria, os contratos de consultoria eram fictícios e serviam para camuflar o pagamento de propina em troca de proteção funcional e blindagem contra apurações.
- Inspetores e Operadores da Polícia Civil:
- Pablo Jukia Felix Ferreira (“Pablo Russo”): Inspetor historicamente ligado a Marcus Amim, apontado como administrador fático de boa parte da rede de postos e canal de comunicação direto para vazamento de ações de fiscalização.
- Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes: Inspetores da corporação que haviam sido demitidos após envolvimento em ilícitos em 2011 e reintegrados administrativamente pelo governo estadual em 2018.
- José Carlos Alves de Souza Júnior:Também integrante do quadro da Polícia Civil.
Durante o cumprimento dos mandados, os agentes apreenderam R$ 40 mil em dinheiro vivo na adega de um imóvel residencial de luxo em Camboinhas, Niterói, pertencente a um dos policiais investigados.
Estrutura do Esquema: Postos, Cartel e Blindagem Institucional
O núcleo operacional da organização funcionava pela exploração de um monopólio informal de combustíveis em municípios da Baixada Fluminense e adjacências:
- Plataforma de Lavagem (96 Postos):Das 112 empresas atingidas por ordem judicial de suspensão, 96 são postos de gasolina. Segundo a investigação, as empresas misturavam receitas fictícias ou adulteradas de combustíveis com valores ilícitos derivados de milícias e desvio de verbas, processando volumes atípicos incompatíveis com a capacidade de estocagem de combustível.
- Vazamento e Violação de Sigilo Funcional:A PF interceptou áudios e trocas de mensagens revelando que fiscais e servidores estaduais repassavam antecipadamente a “Pablo Russo” os calendários semanais das vistorias, rotas de comboios, horários exatos e as placas dos veículos usados pelas equipes de fiscalização do Procon e de órgãos fazendários. Isso garantia tempo para os postos adequarem bombas ou suspenderem operações irregulares durante as inspeções.
- Cartel e Coação: Empresários que tentavam atuar de forma autônoma nessas regiões enfrentavam coação de grupos armados ligados a agentes policiais e lideranças políticas, consolidando preços combinados e inviabilizando concorrência.
O Impacto Político e os Desdobramentos no STF
A competência do caso no Supremo Tribunal Federal decorre tanto das conexões estruturais apuradas pela força-tarefa da ADPF 635 quanto do alcance de mandados sobre agentes públicos com prerrogativa em cruzamento de apurações.
Canella havia obtido autorização do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) para concorrer mesmo após representações da Procuradoria Regional Eleitoral sobre sua custódia prévia em julho. Sua prisão imediata, logo após a proclamação das urnas, abre um cenário de indefinição quanto à diplomação e posse na Alerj, impactando diretamente o equilíbrio de forças da bancada do União Brasil e a articulação entre as lideranças da Baixada Fluminense com a Assembleia Legislativa e o Palácio Guanabara.
Os réus responderão, de acordo com o grau de participação individual, pelos crimes de organização criminosa armada, lavagem de capitais, corrupção passiva e ativa, violação de sigilo funcional qualificada, formação de cartel e crimes contra a ordem econômica.