A combinação entre o marketing eleitoral focado em engajamento raso e a sucessão ininterrupta de tensões entre os Poderes transformou o debate público brasileiro em um espetáculo efêmero. O alerta, feito pela presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, destaca que o eleitor corre o risco de ir às urnas desprovido de diagnósticos reais sobre os rumos do país.
O duplo estrangulamento do debate
O esvaziamento das propostas ocorre por duas frentes complementares:
- A “tiktokização” da política: As campanhas priorizam cada vez mais formatos ultra curtos, humorísticos ou apelativos. A lógica do algoritmo movida a cortes rápidos, dancinhas e confrontos fabricados para inflamar bolhas virtuais substitui a apresentação de planos de governo sólidos. O confronto consistente de ideias dá lugar à caça indiscriminada por likes e visualizações.
- O monopólio das crises institucionais: O noticiário político é frequentemente sequestrado por atritos entre o Judiciário, o Legislativo e órgãos de investigação. Embora essas crises exijam cobertura rigorosa, sua onipresença na mídia acaba drenando todo o oxigênio que deveria ser dedicado à discussão programática.
Temas urgentes postos em segundo plano
Quando a pauta pública se restringe a polêmicas passageiras e escândalos de bastidor, questões estruturais cruciais para as próximas décadas deixam de ser cobradas das candidaturas:
- Emergência climática: Estratégias reais de mitigação de desastres, transição energética e preservação ambiental.
- Soberania econômica e tecnológica: Pautas contemporâneas decisivas, como a exploração de terras raras e a regulação/atração de grandes data centers no território nacional.
- Desafios fiscais e sociais: Modelos de financiamento dos serviços essenciais (saúde, segurança e educação) e políticas para combater desigualdades socioeconômicas estruturais.
Diante desse cenário, a posição da entidade sinaliza que a imprensa não pode simplesmente competir com as redes na lógica do clique nem se limitar ao jornalismo declaratório. Cabe ao jornalismo profissional insistir no contraponto analítico e no escrutínio detalhado dos programas de governo. Afinal, quando o debate democrático é reduzido a um vídeo de 15 segundos, a sociedade civil perde sua principal ferramenta: a capacidade de exigir compromissos concretos de quem almeja governar.