Frota de bikes elétricas cresce 37 vezes e amplia desafios no trânsito

Com mais de 284 mil veículos em circulação, avanço da micromobilidade divide opiniões entre mobilidade urbana ágil e falta de infraestrutura para evitar acidentes graves

O número de bicicletas elétricas, ciclomotores e equipamentos autopropelidos em circulação no Brasil passou por uma expansão vertiginosa nos últimos anos. Entre 2016 e 2024, a frota nacional dessas opções de transporte saltou de 7,6 mil para 284 mil unidades — uma alta de 37 vezes, segundo levantamentos do setor. A rápida adesão popular, no entanto, expõe gargalos na infraestrutura urbana e desafios na convivência com veículos de grande porte.

Em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, a micromobilidade se consolidou como uma alternativa rápida para viagens de curta e média distância, mas também elevou a incidência de conflitos no tráfego.

Para o diretor executivo da Aliança Bike, Luiz Saldanha, a adoção em massa ocorreu de maneira orgânica antes mesmo do planejamento viário:

A população, de forma espontânea, foi comprando e utilizando cada vez mais e aí a gente entra nas discussões de como é que tá sendo esse uso, que tem crescimento muito grande e acaba tendo conflitos. Falta entender como é que a gente consegue encaixar esses veículos e ordená-los no dia a dia.”

Tragédias e a urgência por segurança viária

A fragilidade dos condutores diante do tráfego pesado já resultou em episódios fatais, como o atropelamento de um menino de 9 anos e de sua mãe na Zona Norte do Rio de Janeiro, atingidos por um ônibus enquanto trafegavam em um autopropelido.

O pai da criança, o roteirista Vinicius Cacofonias, alerta para a falsa sensação de distância que as pessoas mantêm em relação aos perigos do trânsito:

“Muitas vezes a gente pensa: ‘Ah, isso acontece muito pouco. Quantos casos você sabe?’ Mas basta ser o seu que vai ser doloroso. Acho que a gente perde a perspectiva de que um dia pode ser com a gente.”

O que diz a legislação do Contran

A regulamentação desses veículos foi atualizada em 2023 pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que estabeleceu critérios técnicos para enquadrar os modelos em três grupos:

  • Bicicletas elétricas: Modelos com pedal assistido acionado pelo esforço humano, sem acelerador avulso. Dispensam emplacamento e habilitação.
  • Autopropelidos: Dispositivos com motor próprio que dispensam pedalada humana, com velocidade máxima limitada a 32 km/h. Também não exigem emplacamento nem carteira de motorista.
  • Ciclomotores: Veículos motorizados que atingem até 50 km/h. Exigem emplacamento, registro veicular e condutor habilitado (com CNH categoria A ou Autorização para Conduzir Ciclomotor – ACC).

Críticas às regras e o desafio urbano

A dispensa de exigências para os autopropelidos gera divergências entre especialistas. Raphael Pazos, integrante da Comissão de Segurança do Ciclismo do Rio de Janeiro, argumenta que a norma abriu precedentes perigosos:

“A resolução do Contran alterou a nomenclatura de certos dispositivos, autorizando o que antigamente era proibido. O que antes era ciclomotor virou autopropelido e foi autorizado em calçadas e ciclovias. Agora qualquer um, principalmente adolescentes, pode adquirir esse equipamento e conduzi-lo na pista.”

Na avaliação do professor Marcus Quintella, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o desafio das cidades consiste em equilibrar regulamentação e incentivo ao transporte sustentável:

“As cidades não estavam preparadas para essas inovações e agora correm atrás com adaptações. A bicicleta e os modais leves são fundamentais na matriz de transporte urbano. Não se pode inviabilizar a micromobilidade pelo excesso de rigor, mas também não se pode permitir um cenário fora de controle.”