Crise e sucessão no Rio de Janeiro: o enário Político de 2026

O cenário político do Rio de Janeiro inicia o ano de 2026 mergulhado em uma complexidade institucional sem precedentes. O ponto central dessa engrenagem é a desincompatibilização planejada do governador Cláudio Castro (PL). Castro articula sua saída do Palácio Guanabara logo após o Carnaval, antecipando o prazo de abril para disputar uma vaga no Senado Federal.

A “Dupla Vacância” no Governo do Rio

O que deveria ser um rito de passagem natural tornou-se um labirinto jurídico. O estado enfrenta uma “dupla vacância” no Executivo: o Rio de Janeiro não possui vice-governador desde a renúncia de Thiago Pampolha, que assumiu uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Esse vácuo de poder aciona, obrigatoriamente, a realização de uma eleição indireta conduzida pela Assembleia Legislativa (Alerj). Dessa forma, o parlamento estadual torna-se o epicentro de uma disputa feroz pelo controle da máquina pública antes do pleito geral.

Nicola Miccione: A Peça Central do Mandato-Tampão

Neste tabuleiro de alto risco, surge a figura de Nicola Miccione, atual Secretário da Casa Civil. Homem de confiança de Castro e filiado ao PL, Miccione é visto como o nome ideal para um eventual “mandato-tampão”.

Sua trajetória combina perfil técnico e político:

  • Advogado de carreira do Banco do Nordeste;
  • Pós-graduado em Processo Civil com MBA pela USP;
  • Arquiteto da concessão da CEDAE.

A estratégia do Palácio Guanabara é eleger Miccione via Alerj para garantir a continuidade de contratos e a segurança jurídica do grupo político até outubro de 2026.

Resistências no PL e a Influência da Família Bolsonaro

Apesar do favoritismo, a ascensão de Miccione enfrenta resistências. Dentro do Partido Liberal (PL), lideranças como Altineu Cortês indicam que a decisão final passará pelo crivo do senador Flávio Bolsonaro. Para a família Bolsonaro, o Rio de Janeiro é o reduto primordial para a reorganização da direita nacional.

Existe uma tensão latente entre a ala pragmática (ligada à máquina estadual) e a ala ideológica (que busca nomes mais conservadores). Por outro lado, o apoio do PSDB de Luciano Vieira sugere uma tentativa de construir um arco de alianças suprapartidário para isolar a oposição.

O Impasse na Alerj: Rodrigo Bacellar e Guilherme Delaroli

A situação do Legislativo aumenta o caos. Pela linha sucessória, o presidente da Alerj deveria assumir interinamente. No entanto, Rodrigo Bacellar (União Brasil) foi afastado por ordem do STF e monitorado por tornozeleira eletrônica.

Com Bacellar fora do jogo executivo, a interinidade de Guilherme Delaroli (PL) na Alerj gera novas dúvidas. Juristas argumentam que um presidente interino não pode assumir o governo em definitivo, o que reforça a necessidade da eleição indireta aberta a cidadãos elegíveis, como Nicola Miccione.

O Judiciário e o Timing da Renúncia

O Judiciário atua como uma “espada de Dâmocles” sobre o processo. A ADI 7139, que questiona as regras de sucessão na Constituição Estadual, tramita no STF e pode alterar o rito a qualquer momento.

Para evitar surpresas, Cláudio Castro cogita renunciar antes de julgamentos decisivos no TSE. O objetivo é garantir que a transição ocorra sob as regras atuais, mantendo o controle do orçamento bilionário e a sobrevivência política do grupo diante das incertezas judiciais.