Teresópolis: a cidade que parou no tempo

Quem chega em Teresópolis logo se encanta. O clima ameno da serra fluminense, as montanhas imponentes e o charme do centro turístico são, de fato, sedutores. Mas essa beleza esconde uma cidade marcada pela inércia, pela corrupção e pelo descaso do poder público.
Teresópolis: a cidade que parou no tempo.

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Quem chega em Teresópolis logo se encanta. O clima ameno da serra fluminense, as montanhas imponentes e o charme do centro turístico são, de fato, sedutores. Mas essa beleza esconde uma cidade marcada pela inércia, pela corrupção e pelo descaso do poder público. A realidade que se impõe é dura: Teresópolis não está parada no tempo apenas, como corre o risco de regredir ainda mais se nada for feito.

Raízes de um atraso histórico

Teresópolis em 1885
Vista da freguesia de Teresópolis em 1885. Georg Grimm – Enciclopedia Itaú Cultural

Fundada em 6 de julho de 1891, quando a freguesia de Santo Antônio do Paquequer foi elevada à categoria de município, Teresópolis carrega 134 anos de história. Mas também acumula uma longa lista de escândalos políticos que comprometeram seu desenvolvimento. O problema, portanto, não é apenas conjuntural: trata-se de um atraso estrutural, enraizado na forma como a política local se organizou, quase sempre distante das necessidades da população.

O trauma de 2011 e a corrupção institucionalizada

No dia 8 de junho de 2018, o jornal O Globo publicou a reportagem “A Corrupção que Resiste na Região Serrana”, destacando como a tragédia de 2011, que deveria ter despertado solidariedade e planejamento, foi, na prática, catalisadora de corrupção. Empresários denunciaram que a propina cobrada por agentes políticos saltou de 10% para 50%. A Câmara de Vereadores, em vez de fiscalizar, se tornou cúmplice.

O resultado foi devastador: seis dos doze vereadores da época presos na Operação Ananás, um prefeito afastado e a paralisia administrativa que custou caro ao município. E aqui vale a reflexão: como esperar que uma cidade avance se metade de sua representação política estava comprometida com a extorsão? Não era apenas um escândalo, era a institucionalização do “quanto pior, melhor”.

Ocupação desordenada e o preço da falta de planejamento

Comunidade do Perpétuo, em Teresópolis. Foto: Célio Nilton.

Foi ainda nos governos de Mário Tricano, a partir de 1989, que a ocupação desordenada começou a moldar uma Teresópolis desigual e favelizada. O Censo de 2022 trouxe um dado estarrecedor: cerca de 31% da população vive em comunidades. Para quem visita a cidade e passeia pelo centro, o contraste pode não saltar aos olhos. Mas basta andar um pouco além do circuito turístico para ver ruas precárias, moradias improvisadas e a ausência quase total do Estado. O município que poderia ter planejado seu crescimento urbano preferiu apostar na improvisação, e paga até hoje o preço dessa escolha.

Saúde pública: a promessa que virou lenda

TCE-RJ cobra explicações a prefeitura de Teresópolis. Imagem: reprodução InterTV RJ

Poucos setores revelam tanto o descaso político quanto a saúde. A UPA da cidade, principal porta de entrada de urgência e emergência, vive lotada. Faltam médicos, faltam medicamentos, falta gestão. Entram governos, saem governos, e a única coisa que permanece é a promessa de um hospital municipal. Promessa tão repetida que já virou piada cruel: em Teresópolis, hospital municipal virou lenda urbana.

O atual prefeito, Leonardo Vasconcellos (UNIÃO), repetiu o refrão em sua campanha. Mas a realidade é outra. Com dificuldades até para garantir serviços básicos, a construção de um hospital parece distante. Enquanto isso, hospitais conveniados pressionam por repasses, ameaçam suspender atendimentos e deixam a população refém de um sistema falido.

Para agravar o quadro, o TCE-RJ, no último dia 15 de agosto deste ano, questionou uma licitação para fornecimento de gases hospitalares, apontando exigências restritivas que poderiam favorecer uma empresa específica. Ou seja: nem na hora de comprar oxigênio a cidade respira sem suspeita.

O povo cansado de esperar

O caos no transporte público em Teresópolis. Imagem: Reprodução InterTV RJ

Conversar com os moradores de Teresópolis é ouvir um coro de desânimo. “Moro aqui há 27 anos e parece que nada mudou”, relatou um morador do bairro São Pedro. Essa frase, solta e sincera, traduz a sensação geral: o tempo passa, mas a cidade não anda.

No interior, a revolta é ainda maior. O transporte público é precário, ônibus lotados demoram a passar, especialmente nos fins de semana. Para trabalhadores como Cristina, de Vargem Grande, a rotina é um exercício diário de paciência: “A vida de quem depende dos ônibus é muito difícil”, lamenta. E não se trata apenas de transporte: é da ausência de políticas públicas, de um Estado que parece esquecer seus cidadãos mais distantes do centro.

Ruas esburacadas, cidade abandonada

Buraco na Rua João Batista Pires, Agriões. Foto: Reprodução Redes Sociais

Com terrenos altos, chuvas frequentes e um clima que exige manutenção constante, Teresópolis deveria ter a pavimentação como prioridade. Mas a realidade é oposta: ruas esburacadas, escoamento precário e obras que nunca saem do papel. O abandono é visível a cada esquina. Uma cidade que deveria receber turistas com orgulho, recebe-os com crateras no asfalto.

Enquanto cidades vizinhas, como Petrópolis, Nova Friburgo, Guapimirim e Magé conseguem avançar em projetos de mobilidade, turismo e atração de investimentos, Teresópolis permanece presa a velhos problemas. O que poderia ser uma vantagem competitiva, estar em uma das regiões mais conhecidas do Rio de Janeiro, se transforma em contraste doloroso. O entorno cresce, se reinventa, mas Teresópolis insiste em se manter estagnada, refém de promessas que nunca saem do papel.

Violência em alta e juventude à deriva

Violência em alta em Teresópolis, aponta ISP.
PMERJ/Divulgação

Se a precariedade dos serviços básicos já sufoca, a escalada da violência preocupa ainda mais. Dados do Instituto de Segurança Pública mostram que, apenas no primeiro trimestre deste ano, os registros de tráfico de drogas aumentaram 58,7%. Mais grave: os autos de apreensão de adolescentes por atos infracionais cresceram 67,9%.

Esses números não são estatísticas frias. Eles revelam que os jovens de Teresópolis estão sendo engolidos pela ausência de alternativas. Sem esporte, cultura ou políticas sociais consistentes, a criminalidade se torna um destino quase natural. O poder público fecha os olhos, e a juventude paga a conta.

Um futuro que pede coragem

É claro que Teresópolis tem qualidades: sua natureza, sua vocação turística, sua história. Mas isso não basta. O município precisa de coragem política para enfrentar seus problemas estruturais. Sem planejamento urbano, sem investimento sério em saúde, sem transporte digno e sem políticas sociais, o que resta é o ciclo vicioso de promessas e frustrações.

O mais grave é que a população parece resignada, desacreditada de mudanças. E esse talvez seja o maior risco: quando o povo perde a esperança, abre-se espaço para que a velha política siga reinando, intocada.

A pergunta que ecoa é direta e incômoda: até quando Teresópolis será refém da incompetência e da corrupção? Se nada mudar, o município não será lembrado pela beleza de suas montanhas, mas pela incapacidade de seus governantes de honrar o povo que as habita. Teresópolis não pode permancer parada no tempo.

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